
BULLY - A AMPULHETA MÁGICA DE YE
Um ensaio em quatro partes.
[1]
The time is now, right now / This is the hour / This is the new dawn, this is the new day / Now is the time, for nature and all her glory have named you her king
Anunciado pela voz de Duke Edwards na intro de KING. O novo amanhecer é agora, agora é a hora. Tempo é um dos temas recorrentes ao longo de BULLY, e a imagem do novo amanhecer, que abre o álbum, também é retomada enfaticamente ao final dele.
“When the evening gets darkest
I know dawn is upon us, I, woah”
São versos da última faixa, THIS ONE HERE. A imagem do amanhecer é a promessa do amanhã concretizada e condiz com a narrativa de Ye de que ele vive o futuro. A leitura de viver o futuro tem pelo menos duas chaves. A primeira é que Ye enxerga para além do presente, e a segunda é que Ye vive o presente como único momento possível. Uma não exclui a outra. Ele quer tanto conduzir-nos ao futuro, onde já está, como quer que entendamos que o futuro-como-prometido é uma ilusão, um falso porvir, uma das amarras com que o sistema nos prende. A fim de nos limitar. De impedir que alcancemos o que é posto como inalcançável (o discurso em si, do sistema, que nos contamina e surge como outra amarra, percebido assim no refrão da faixa BULLY, “obey, do what I say”).
Now is the time, for nature and all her glory have named you her king
A partir da natureza, temos uma primeira imagem do divino apresentada; essa será outra imagem recorrente ao longo do álbum, conforme o artista segue explorando a temática cristã que tanto marcou sua obra, especialmente em álbuns recentes. O divino coroa seu rei: você. Ye se coloca na posição de receptor da mensagem e assume o papel. Ye se coloca como o herói da narrativa. Há referências a Ye como herói, anti-herói, deidade. E há o apontamento de que o sistema o pinta como vilão.
The hero became the villain now
We gon’ send it up and go a million miles
And she ain’t dealin’ with no Shallow Hals
She want that Iron Man like Gwyneth Paltrow (Named you the king)
Mas Ye acelera em sua missão de alcançar o inalcançável, e de conduzir-nos até lá. Esse inalcançável é descrito como o alto na maior parte do tempo, por isso tantas referências a voar e, claro, ao amanhecer, a um alvorecer, juntando o tema do futuro que é o agora com esse inalcançável, ou o alto, que é, em seu discurso, o lugar do que é nosso por direito: a glória divina. Tudo isso podemos pensar como uma missão de ascensão. Na posição de líder [“When all y’all treated me like an orphan / The classics turned me to Daddy Warbucks”¹], Ye aponta a direção.
E em THIS A MUST, Ye traz o chamado imperativo à ascensão.
Yeah, give it up (Give it up), send it up (Yeah, send it up)
It’s imperative, it’s a must (It’s a must)”
É continuada a imagética do alto [“We gon’ run it up, but we ain’t in a rush (Run it)”], enquanto Ye aponta, agora, para o passado, a fim de demonstrar que, em outros momentos, ele também vivia o agora já sabendo o resultado final de um futuro por vir, ainda que o mundo ecoasse que nada é prometido para o amanhã hoje.
Graduation days, I was comin' for the glory then
Blessings rained in, pourin' in, I need more of them (Woo)
Took it worldwide like I said I would from jump (Jump)
Know I did it all when it's all said and done (Jump, jump, jump, yeah)
Tempos em que ele se valeu de uma armadura de autoestima para enfrentar as dúvidas e lutar para superar os obstáculos. Ele segue cheio de si, vangloriando-se ao longo dos versos, como quem ainda usa a autoestima como essa armadura.
I put tennises on both wrists, rings both hands (Tennis, yeah)
Know the truth, I’m just over it, y’all don’t understand
Next to me, you niggas soda cans in the Grand Canyon (What?)
No vídeo seguimos acompanhando uma criança derrubando todo um grupo de lutadores profissionais com um martelo de brinquedo, a marreta biônica. A criança é Saint West, filho de Ye, que protagonizou a cena que inspiraria o artista a dar o título ao álbum. Saint veste a camisa do Real Madrid (time que se vale da imagem de rei em referência à monarquia espanhola) e, ao vencer todos os oponentes no primeiro vídeo (que voltariam a se erguer somente para serem postos ao chão no segundo e em outros), incorpora a imagem do rei coroado pelo divino, referido na primeira faixa do álbum. A imagem da criança também será recorrente nos vídeos que acompanham as músicas de Bully, e referenciada em algumas das músicas.
A intro de FATHER é uma súplica por mais um dia, cantada por Johnnie Frierson. Súplica com o reconhecimento de que não atribuímos a nós mesmos a glória que o divino nos concede. Ye, por sua vez, ostenta essa glória.
See this coat, nigga?
E despede-se de Kanye; não mais deveremos sentir falta de sua versão passada, superada. Essa renúncia a quem ele já foi se encaixa com a perspectiva de abraçar o agora e quem você é agora.
Bye-bye to my old self (Old self)
Wake up to the new me (It’s a new me)]
I used to be on Worldstar (Worldstar)
Now I’m making Newsweek (Newsweek)
I used to hang on the 9 (On the 9)
Now I bought two streets (Two streets)”
Há um jogo de duplicidade na letra. Os versos de Travis Scott espelham os de Ye, e a fala de James Brown sampleada [“‘Cause I look good, I smell good, I feel good (…) / (…)and make love good”] carrega o reconhecimento da própria glória que veremos nos versos da música. No vídeo há também significados que podem ser atribuídos ao duplo. Ye e Travis aparecem ambos como alienígenas, ainda que haja clara distinção: Ye tem o rosto alienígena mascarado com o rosto humano, enquanto Travis aparece disfarçado de alien.
Há muito que pode ser percebido, apontado, analisado sobre os diversos elementos aparentemente surreais do vídeo de FATHER, dirigido por Bianca Censori. Há o jogo dos espaços, dentro e fora, entre o baixo e o alto, com o cenário do lado de fora exibindo o céu, as duplicidades, duas crianças, duas freiras, as duas noivas, a maior parte dos personagens divididos em pares, o homem que performa truques para a mulher que permanece impassível, a mãe e o filho.
A igreja é o elemento de tensão entre o divino e o sistema. O divino é marcado pela espiritualidade ou pela fé; o sistema pela institucionalidade. A igreja é o espaço atribuído a Deus, mas, como instituição, pela figura do padre e por outras autoridades que concederão o direito de ir e vir e cercearão a relação com a fé, ela representa o sistema, o vilão do herói cuja história acompanhamos no álbum. E ao sistema é atribuído o valor de falso, que percebemos, em especial, a partir da criança controlada pela mãe, outra figura de autoridade, em menor escala, que se vale de uma rigidez autoritária para proteger o filho. Se, a princípio, relacionamos Ye ao segundo artista na música, Travis Scott, é a criança que brinca com o cubo mágico sem cores o outro duplo que melhor representa o protagonista no vídeo. O menino percebe, desde o início, a farsa do sistema.
Ao final do vídeo, os personagens que se curvam ao sistema e tentam se adequar ao jogo deixam a cena; a súplica inicial ecoa, e poucos restam na igreja. Uma das figuras que estavam do lado de fora, um homem carregando uma cruz com Jesus, finalmente entra na igreja depois que todos os que aceitam a falsidade do sistema saem dela. Perceber essa luta entre o que é bom e o que é mau conduz melhor o olhar a navegar pelo vídeo. O adeus ao seu velho eu, acordando como um novo (dentro da narrativa do vídeo, alienígena), caracteriza o herói em BULLY como aquele que agora está completamente fora do sistema e carrega a perspectiva da criança, agora com o poder para lutar contra a farsa, a música que todos aceitam dançar, propondo um novo tipo de música, um que nos liberte do sistema.
[2]
Um novo amanhecer. Ascensão. ALL THE LOVE é um mantra que funciona como um perdão divino que podemos conceder a nós mesmos ao escutá-lo.
We don’t have to worry
And we don’t have to hold on
To pain we left behind
Wounds get healed with timе
Para que ascendamos, devemos deixar a dor para trás. Não à toa é dito que temos todo o amor e todo o brilho esta noite. Noite como o momento prévio ao amanhecer. Noite como momento prévio à ascensão.
And now you got all the love and all the shinе
You always wanted all the time, tonight
Tonight (It’s what you deserve)
E não à toa ALL THE LOVE bate mais forte. A ascensão é sentida; em determinado momento, há a sensação de elevação: a batida cessa e o agudo aumenta na voz distorcida de André Troutman. ALL THE LOVE é como a promessa de ascensão concretizada, ainda que por um breve momento, quando nos permitimos o sentimento de liberdade. Você escuta e flutua.
(We left all the pain behind)
(We left all the pain behind)
(We left all the pain behind)
(We left all the pain behind)
Deixamos toda a dor para trás e avançamos.
This time, we takin’ over
Outer space, goin’ solar
Back then, they showed no love
Punch drunk, hungover, huh
Punch drunk, hungover on love
Em PUNCH DRUNK nova menção ao passado caracteriza agora o tipo de vida que levamos presos ao sistema [“What’s worse is livin’ in conditions made / Hearses takin’ good men away / Fathers in the penitentiary / Mothers fightin’ for a livin’ wage”], e a necessidade de fazer disso um passado definitivo. O convite para que o sigamos segue, dessa vez, para o espaço sideral, ecoando a ideia de ascensão, e a de um futuro para o agora com esse elemento de ficção científica.
WHATEVER WORKS é a primeira faixa em que Ye fala mais diretamente sobre seus excessos recentes, e os golpes sofridos [“Lot of pain, lot of hurt”], ainda em tom de leveza e certa indiferença, como quem entende que ao longo de sua jornada, com os riscos que sempre esteve disposto a correr, cometeria erros, seria odiado. Amor e ódio são temas explorados nas duas — “Punch drunk, hungover on love”, em uma, “They gon’ hate it with a passion now, I love it”, em outra, por exemplo.
MAMA’S FAVORITE nos dá uma perspectiva mais ampla sobre esse jogo de riscos, amor e ódio. O tom mais arrogante dá lugar ao que agora soa mais como o de alguém vulnerável. O filho (retomada a imagem da criança), único, favorito da mãe, mas sem ela. Donda West faleceu em 2007, quase vinte anos atrás. Aos que conhecem as histórias de Kanye e Donda (em especial aqueles que assistiram ao jeen-yuhs: A Kanye Trilogy e reconhecem o trecho ao final da faixa), a música soa familiar e remete a tantas outras.
Donda sempre incentivou o filho a manter a confiança e a acreditar no seu potencial e na paixão com que faz as coisas que faz, e Ye já relatou inúmeras vezes quão fundamental o apoio de sua mãe tem sido (ainda ecoa em lembranças, como experienciamos ao final de MAMA’S FAVORITE). A partir desse apoio, ainda presente, Ye segue resoluto em sua missão (de ascensão, “Take this one to Mars like I’m Matt Damon”, em referência ao filme Perdido Em Marte), disposto a desistir de tudo por ela, a não se explicar [“Don’t think it’s my job for me to explain it”], a seguir mal compreendido [“Stay misunderstood, I’m often mistaken”], apesar de mais ódio por vir, possivelmente, e assim o faz movido por amor [“On my wife, I put a wedding ring”]. Certo do que faz, resoluto, ainda ouvindo o que a mãe diz:
Alright, alright, that’s good, Kanye
This is so exciting, isn’t it? I love it
(Yeah, can you believe it?)
I can believe it the way you are
Somebody got it, though, you play tracks like Michael Jordan shoots free throws
Anybody does something that much and that long and is that good, it’s gotta pay off
Can’t go up there and do nothing but go off
(Yeah)
Isn’t that, son?
(Yeah)
The main thing is getting to do something that you really love to do
(So do you, do you think, do you think I come off too arrogant?)
No, come off just right ‘cause it’s what’s inside because you can’t be a star and not be a star
You gotta have some oomph about you
Don’t wanna just go say, “Oh, I’m just really not all that, but thank you anyway”
Nothing like that, I’m not saying come off like that
I think the way you are handling yourself is really just perfect
Para os que insistem em sentir falta do Velho Kanye, a música também é sobre manter a confiança, mesmo quando tentam apontá-lo como arrogante por sua postura, tema central nos primeiros álbuns de Ye (The College Dropout, Graduation e Late Registration).
O tom muda a partir da vulnerabilidade exposta em MAMA’S FAVORITE. As faixas seguintes a ela são de tom mais pesado e sombrio. Em SISTERS AND BROTHERS, Ye fala sobre amigos, irmãos e irmãs que parecem estranhos e o olham com dúvida enquanto ele se reafirma, comparando-se a Gengis Khan, governador fundador do Império Mongol, que unificou diferentes povos na região central da Ásia e cujas atitudes ecoaram para além de sua morte, tornando o Império Mongol o maior da história — as ações de Gengis Khan refletiram no futuro, essa é a comparação que Ye faz, como quando disse em entrevista que entrevistas que ele dera antes daquela não haviam sido bem recebidas à época, mas que ele foi melhor compreendido anos depois delas.
Ye ainda reafirma que não sentirá os golpes desferidos contra ele, brinca com a questão do seu aparente cancelamento, diz que esquecerão, leve umas duas semanas e uns dois invernos, ou, menos que isso, duas partidas de Fortnite enquanto ele ainda se mantém vencedor (“Couple fortnights and at least two winters”, que pode ser entendido como “Couple fortnites and at least two winners”). E brinca com o cancelamento, se proclamando anti-herói e vigilante agora. No interlúdio pela voz de Loleatta Holloway entendemos melhor a insistência em esconder sua vulnerabilidade:
A lady looked at me, really, a lady looked at me and she said
“Never let someone know that they’re getting you down” (Yeah, baby)
“You see, if you let them know that they’re getting you down, honey
They gon’ kick you really far” (Yeah, baby)
Se souberem que você está no chão, quererão mantê-lo lá. Na outro, pela voz de Jonah Thompson, o divino é retomado [The sign of Jesus, it's all in my room / I believe He's coming, He'll be here soon]; nele o herói segue encontrando forças para continuar. Em BULLY entenderemos melhor o título do álbum e como essa temática do agressor encaixa na narrativa sobre o embate entre o herói e o sistema. A vulnerabilidade que Ye tenta esconder é escancarada aqui, ainda que ele siga reafirmando sua força, e a importância de sua luta.
Em tom arrogante e intimidador, Ye rima sobre seu descontrole, relacionando-o aos seus rompantes, e se reafirma como Deus, como o fez na I Am A God, do álbum Yeezus, reforçando sua conexão com o divino e a aceitação da glória divina por meio de hipérbole. Da mesma maneira, em algum nível, ele se refere a si próprio ao falar sobre uma obra-prima que se transformou em catástrofe. E, ainda assim, ele prefere assumir essa catástrofe, mostrando ao mundo o que custa manter-se fiel a falar o que pensa, por mais insano que pareça para o resto do mundo. Pela sua lógica, ele está atingindo os castelos no céu, e aqueles que detêm o poder.
When a masterpiece turn into catastrophe
They get mad at me for livin' out my fantasies
All the castles in the sky comе down crashin' every time I spеak my mind
All the people
Swear my ego
Needs a repo
But I won't let go
In denial of it all
Baby, tell me what it costs you
To tell the truth
Enquanto isso, sentimos o peso do sistema pelo refrão, em repetição, obedeça, faça o que eu digo, não há outro jeito, como a voz da cultura que atende ao sistema, tentando se sobressair nesse embate, calá-lo. Pelo texto e pelo tom ameaçador do refrão, cantado por CeeLo Green, Ye caracteriza o sistema como o bully; é o sistema que nos intimida. É apontado como efeito dessa intimidação que as pessoas inseridas nele também se tornam agressores.
bully (1) uma pessoa arrogante e intimidadora; alguém que é habitualmente cruel, insultuoso ou ameaçador com outros que são mais fracos, menores ou de alguma forma vulneráveis. (…) verbo intransitivo: usar linguagem ou comportamento cruel, insultuoso, ameaçador ou agressivo.
[3]
Em HIGH AND LOWS, a relação entre artista e público vira o foco. Ye a constrói a partir de uma aparente conversa entre o eu lírico e a pessoa amada, e sobre o quão difícil é se manter ao lado dela, além do medo de perdê-la e de se perceber sozinho.
Highs and lows
I put you through a lot, I know
Highs and lows
Still, you never let me go
I CAN’T WAIT é costurada a HIGHS AND LOWS e Ye segue falando sobre o medo da solidão, o medo de perder essa conexão, a partir da figura amada, representando também aqueles que o escutam e estão com ele ainda agora. Em ambas, ele segue a temática Ye versus Sistema.
Ain’t nobody bigger than the program
‘Til you bigger than the program
They hatе to see the system actually figured out
Thеy want you caught up in distraction, fear, and doubt
E o mesmo tema é continuado em WHITE LINES [Talvez a minha favorita do álbum]. O tom intimista, a versão de They Long to Be (Close to You), de Stevie Wonder, sampleada, o texto centrado na tensão entre perceber-se sozinho e não saber direito como manter o contato com o outro, manter a companhia do outro, manter o amor entre os dois, é tudo de uma melancolia tocante. Tudo isso junto da promessa de um sonho, do voo acima dos campos, a ascensão sobre a qual ouvimos desde o início da história.
CIRCLES remete a THIS A MUST, mas a pressão agora é para si próprio. Enquanto THIS A MUST convidava, a partir da perspectiva da necessidade, quem escutava o álbum a se juntar ao herói da história, CIRCLES revela a fraqueza diante da necessidade dele de não se abalar mesmo quando parece não sair do lugar.
Hold on, I can’t miss this
Hold on, I got issues
Hold on, on a mission
Hold on, hittin’ this one
A maneira como “circles” é repetido caracteriza um embate semelhante ao de BULLY, agora com a repetição de “circles” parecendo um vírus do sistema infectando o sujeito em seu momento de fraqueza. Uma das primeiras versões da música tem a batida em velocidade reduzida, que evidencia ainda mais esse momento de fraqueza. É quase como se, nesse ponto, o herói pensasse em desistir. Nessa outra versão, não oficial, o jeito que o som da bateria sobe quando é cantado “She doin’ it right to keep me up”, parece um elemento que enfatiza a importância de não estar sozinho em momentos de fraqueza como esse, o que conecta ao que é trabalhado nas músicas anteriores, a importância da conexão (como escolha fazer sua leitura, seja a do eu com a pessoa amada, seja a do artista com o público); são as relações que fortalecem o sujeito diante da opressão do sistema.
Depois da tormenta entre BULLY e CIRCLES, encontramos em PREACHER MAN um ponto de respiro; mesmo a voz de Ye aqui é mais equilibrada, calma, controlada e firme. Voltamos ao reconhecimento do seu próprio potencial:
I go where they never can
I float, I don’t never land
Ye enfrentou as turbulências e se manteve o melhor (afirma), reafirmando-se como líder, acolhendo e apontando o caminho, como portador da luz [When it’s dark, you don’t know where you goin’ / Need a light-bearer to lead you home].
No segundo verso ele é ainda mais claro quanto a isso:
What we doing’s more important, more importantly
Look where we made it to
Made love that’s unmakeable, bonds that’s unbreakable
Broke rules and bent corners in hopes of breaking through
Basically, went out my way to make a way for you
Basically, I’m finna take you higher places to it
Way improved, and like a beta, we gon’ stay improvin’
This the light that’s gon’ illuminate the way we movin’
Trust in me, we goin’ God mode, the theory’s proven
Reafirma o que já fez, o que já conquistou, relacionando o mérito não só ao próprio potencial, mas também ao dos que se mantêm junto dele (conectados pelo amor), e coloca-se junto daqueles que o escutam, afirmando que iremos alçar voos maiores. Ascender.
Light ‘em up, beam me up
The only GOAT, the genius one
BEAUTY AND THE BEAST vem como um segundo mantra, a repetição que direciona e dá foco, e uma paz alcançada a ser mantida a partir dessa repetição. A faixa evidencia o tom de reconciliação e, ao mesmo tempo, de redenção que o álbum ganha a essa altura. A depender da recepção, do sucesso comercial e da aceitação da audiência, a história pode muito bem ser a de redenção, com Ye ainda nos entregando música que nos move.
It’s been a long time coming
Fresh new tires, I’m still running
It’s a few things I’m overcoming
Run the checks still clear, still
[4]
O álbum se encaminha para o final com sua segunda metade dominada por tons mais melancólicos, em contraste com a leveza das faixas da primeira metade. E a voz de Ye atinge o ponto máximo de melancolia em DAMN. A relação entre o eu e um você que o escuta ganha um tom de maior intimidade quando a leitura inicial é a de alguém se desculpando à pessoa amada pelos erros que cometeu. Justificando, ou melhor, não justificando, “Well, that’s the way I am”. Ainda que a música seja sonoramente triste, a letra entrega um ponto positivo que pode ser costurado com a ideia de viver o hoje como único tempo possível:
Today will always last
We’re the ones that pass away
So, baby, did you laugh today?
This one’s for the path we take
Magic hourglass
At least I gave you that
Intriga a citação a uma ampulheta mágica (magic hourglass), que pode ser uma referência ao livro interativo, cuja história começa e termina no presente, tratando-se de uma jornada ao passado, e pode também ser em relação ao objeto na versão clássica do filme O Mágico de Oz, onde a ampulheta simboliza a proximidade do fim da vida de Doroth. Seja quanto à jornada ou quanto à amplificar o senso de urgência com a ideia do fim da vida estar próximo, a ideia de que a vida passa depressa, a ampulheta mágica conecta com a temática geral do álbum, essa ode a viver o presente como se não houvesse amanhã, ou, trazer o amanhã para o hoje, e também com a ideia de deixar o passado para trás, renunciar seu eu de outrora, desagarrar das dores deixadas para trás. E encanta a pergunta: “Você riu hoje?”. A risada pode representar o sentimento de encantamento que temos no contato com arte em geral. Ye nos entregou esse encantamento de novo e de novo ao longo da sua discografia e, se em BULLY, ele nos encantar de novo, responderemos que sim, rimos hoje.
Ele continua o tom de intimidade entre amantes em LAST BREATH, em ritmo agora alegre, sem mais o tom de arrependimento, ainda que siga se desculpando em algum nível. Ye se entrega a amada, mas anuncia que ela nunca o controlará. Segue a metáfora, ele fala com uma amada, mas também com o público. “Beije-me, deixe-me”, é como se aceitasse que, em seu caos, ele pode perder todo o amor que já recebeu. Mas segue disposto a dar tudo de si, como já o fez, “I gave you my everything, sin problemas”, e reforça o pedido de não me deixe sozinho, “No me dejes solo, si tú sabes que ya te di todo”, e promete, até seu último respiro, “Take my last breath away, mi aire”.
Take all of me
Taking my breath away
Take all of me
Taking my breath away
A renúncia ao ego [“Kicked all the ego right out of the door”] em THIS ONE HERE parece indicar que alcançamos o nível além prometido. A ascensão. Deixamos para trás o nosso próprio corpo, “I’m outside my body, you right”, como se a ascensão fosse também uma passagem para o outro plano existencial, desagarrados do terreno, livres do sistema. A referência ao agora segue, desde o título, remetendo à proximidade, ao aqui, passando pelo refrão, “To waste, no time, right now, showtime”, e é continuamente reforçada através de repetição e em:
When the evening gets darkest
I know dawn is upon us, I, woah
A imagem da noite, em seu começo, evening (que refere ao fim da tarde também, trazendo a ideia do sol se pondo, ou, da queda), se tornando o mais escuro possível, isto é, se tornando noite de fato, e o entendimento de que é quando podemos saber que o amanhecer está para chegar, retoma o que apontei como tema central no início do texto, a ideia de um amanhecer prometido, que devemos entender como o agora, fazendo do agora o futuro que almejamos, livre de uma falsa promessa de um porvir atrelado ao sistema se seguirmos suas regras. É então que alcançamos um novo eu, em ascensão:
This that new us
Started from the ground and moved up
A urgência segue, não há tempo para esperar, há de se reconhecer a própria glória: se não amarmos a nós mesmos não poderemos amar qualquer outra pessoa:
You ain’t got love for yourself
You ain’t never felt a true love
I can see where your heart is
Broken pieces before us
Ye comentou em entrevista anos atrás sobre como quando alguém escuta I Am a God, a ideia é que a pessoa se sinta daquela forma, sinta aquela confiança e se levante. O levante, a ascensão, sua música movendo quem a escuta. BULLY termina com esse tom positivo, THIS ONE HERE é a música mais edificante do álbum, com Ye reafirmando que a sua missão é a de lutar pela própria vida, por viver sua vida sem medo ou amarras, e em paralelo, para que quem o escute possa fazer o mesmo. Poder viver essa vida, essa aqui, ao máximo, do jeito que queremos viver, em seu máximo potencial, é a ascensão prometida. Em seus shows mais recentes Ye se coloca no topo do mundo.
Mas traz os céus à audiência presente. É a ilustração perfeita para a jornada que trilhamos em BULLY. Ye ainda é o gênio criativo capaz de nos mover.
So, baby, did you laugh today?
























Henrique, você acha que o Ye fala em línguas? Deve ser doideira né, um flow rimado de linguas estranhas na igreja dele.
Ps. Mago da Solidão, agora você não tá tão solidão né, tira esse nome aí
highlights _um oferecimento nostalgia Medium:
1. “O adeus ao seu velho eu, acordando como um novo (dentro da narrativa do vídeo, alienígena), caracteriza o herói em BULLY como aquele que agora está completamente fora do sistema e carrega a perspectiva da criança, agora com o poder para lutar contra a farsa, a música que todos aceitam dançar, propondo um novo tipo de música, um que nos liberte do sistema.”
2. “Nessa outra versão, não oficial, o jeito que o som da bateria sobe quando é cantado “She doin’ it right to keep me up”, parece um elemento que enfatiza a importância de não estar sozinho em momentos de fraqueza como esse, o que conecta ao que é trabalhado nas músicas anteriores, a importância da conexão (como escolha fazer sua leitura, seja a do eu com a pessoa amada, seja a do artista com o público); são as relações que fortalecem o sujeito diante da opressão do sistema.”
quebrar sua caixa com cogumelo e ye. e quem sabe um ingrediente a mais ou outro.
adoro como esse álbum é cíclico, o início e o fim encaixam como oroboros. estar ansiosa pelo próximo disco, pelo próximo ato, pelo que vem depois da noite é não saber viver o presente? hum, vejamos